Quando fui buscar o Bruno na escola, ele já tinha planos para sua tarde:
- Mãe, quando eu chegar em casa vou fazer um livro. Você sabe, né, eu quero ser autor de livros quando crescer. E hoje vou desenhar uma história sobre os Angry Birds.
- Sobre o joguinho de celular?
- É, do celular do papai. Já que hoje eu não posso jogar porque papai está trabalhando, vou fazer um livro e mostrar para ele à noite.
Mas a noite chegou e seu pai não.
Era hora de dormir e tudo o que restava fazer era telefonar e lhe perguntar se estava perto ou se ainda estava preso no trânsito.
- Pai, onde você está?... ainda?!?! Aaaahh... – e desligou sem se despedir, tão frustrado que estava. – Papai ainda está no trabalho! Não é justo! Por que ele chega tão tarde em casa?
- É porque ele anda trabalhando muito, querido.
- Então deveria ser o contrário, ué. Se ele está trabalhando muito, deveria terminar o serviço logo e voltar cedo para casa.
Vestiu o pijama chorando. E eu fiquei pensando em quantas casas de São Paulo a cena se repetia naquele mesmo instante. Ele me pediu que o ajudasse. Como eu gostaria de consertar a rotina metropolitana, Bruno... Tudo o que pude lhe dizer foi que ele poderia ligar para conversar um pouco com o pai e lhe dizer boa noite. No começo ele achou que não era suficiente, mas respirou fundo, enxugou as lágrimas e discou o número do celular do pai.
- Pai... você pode conversar um pouco comigo?
Durante a conversa, seu coração foi se amansando com o colo que recebia via telefone. Contou-lhe sobre seu dia na escola, sobre o livro que tinha começado. E ainda recebeu a boa notícia de que papai estava a caminho de casa.
- Então, boa noite, pai. Enquanto você não vem, vou lhe escrever uma mensagem, tá legal? Tchau!
Correu para pegar um lápis em seu estojo e me pediu uma folha de papel.
- Mãaaaae, como se escreve “coisa”?
E desatou a escrever, rápido como o ritmo de seu coração, feliz pela idéia genial que teve para se sentir mais perto do pai. Começava com “Querido papai, eu tinha tanta coisa para te mostrar...” e continuava de um jeito... que não foi possível manter meus olhos secos.
- Mãe, podemos rezar para o papai conseguir chegar mais cedo em casa?
Sentamos em sua cama, e ele começou:
- Papai do céu, ajuda o papai a voltar mais cedo do trabalho e a sair mais cedo para o trabalho. Amém.
Depois que li uma história, ele se aninhou no travesseiro e pareceu adormecer. Encostei a porta. Cinco minutos depois, a chave girou na sala com seu barulho inconfundível, que sempre anunciava a chegada de alguém muito amado. Bruno abriu a porta de seu quarto e saiu correndo abraçar o pai.
E como criança tem prioridade na fila de preces, papai do céu fez meu marido dizer, inocente:
- Amanhã, vou sair mais cedo e levar o Bruno para a escola, posso?
E viveram sonolentos e felizes, por todo o dia seguinte.
quinta-feira, 17 de março de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Pós-graduação: as relações interpessoais na escola e a construção da autonomia moral
Comecei a fazer esta especialização no ano passado movida pela necessidade que senti em conhecer melhor como se dá a recepção da criança e fui atraída especialmente pela disciplina sobre Literatura Infantil. Hoje sou apaixonada por todo o tema e sou mais feliz por conhecer o trabalho de educadores que remam contra a maré para criar um mundo mais ético e pessoas mais felizes.
O que isso tem a ver com meu trabalho como ilustradora? Para mim, tudo. Minha paixão pela Literatura Infantil vai além do desenho. E não consigo me convencer de que não se deve pensar na criança ao criar uma obra literária. Acho que há uma certa confusão com a infantilização da cultura que, aí sim, é menosprezar a inteligência das crianças.
Clicando na imagem, fica mais fácil enxergar as informações.
O que isso tem a ver com meu trabalho como ilustradora? Para mim, tudo. Minha paixão pela Literatura Infantil vai além do desenho. E não consigo me convencer de que não se deve pensar na criança ao criar uma obra literária. Acho que há uma certa confusão com a infantilização da cultura que, aí sim, é menosprezar a inteligência das crianças.
Clicando na imagem, fica mais fácil enxergar as informações.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Feliz ano novo!
Hoje é o primeiro dia de 2011. E eu fiz uma promessa ao Bruno para o dia de hoje.
Embora seja difícil de acreditar, quem tem escritório em casa também trabalha muito. Sim, sim, eu sei que é difícil de imaginar como pode ser considerado trabalho uma ocupação que não exige pegar trânsito e nem comer fora, e ainda por cima com uma geladeira, uma TV e um filho do lado. Só pode ser fácil né? Pois nos modernos dias de hoje em que o Home Office é "In" eu ainda passo raiva porque a grande maioria das pessoas não consegue imaginar como pode ser duro trabalhar em casa. Eu nem vou descrever como é, apesar de ser hilário, porque estou aqui para contar sobre a promessa que fiz para o Bruno.
Ele sabe bem, muito bem, que eu tenho meus trabalhos para fazer em casa. E ele percebe como estou ficando esgotada nesse fim de ano (ã, quê? O ano novo já chegou?). Então ele disse:
- Mãe, quando você terminar seu trabalho, você vai poder tirar férias?
- Bruno, quando eu terminar este trabalho, vou começar outro, e eu espero muito que surja outro e que nunca pare de chegar trabalho porque blá blá blá.
- Ahh... mas e se você decidir descansar um dia por mês, que tal? Que tal descansar no primeiro dia de cada mês?
- Isso iria ser bom. Mas agora mamãe tem que trabalhar, eu não posso parar, o cliente está esperando eu terminar este serviço.
- Mas mãe, você tá trabalhando demais! Vamos combinar que no primeiro dia de 2011 você não trabalha?
- Tá bem! Eu prometo!
- Mas... e seus clientes?...
- Eu volto a trabalhar dia 2.
- Então tá legal.
E essa foi minha promessa, que está di-fí-cil de cumprir. Mas falta só mais um minutoooo!!!
Embora seja difícil de acreditar, quem tem escritório em casa também trabalha muito. Sim, sim, eu sei que é difícil de imaginar como pode ser considerado trabalho uma ocupação que não exige pegar trânsito e nem comer fora, e ainda por cima com uma geladeira, uma TV e um filho do lado. Só pode ser fácil né? Pois nos modernos dias de hoje em que o Home Office é "In" eu ainda passo raiva porque a grande maioria das pessoas não consegue imaginar como pode ser duro trabalhar em casa. Eu nem vou descrever como é, apesar de ser hilário, porque estou aqui para contar sobre a promessa que fiz para o Bruno.
Ele sabe bem, muito bem, que eu tenho meus trabalhos para fazer em casa. E ele percebe como estou ficando esgotada nesse fim de ano (ã, quê? O ano novo já chegou?). Então ele disse:
- Mãe, quando você terminar seu trabalho, você vai poder tirar férias?
- Bruno, quando eu terminar este trabalho, vou começar outro, e eu espero muito que surja outro e que nunca pare de chegar trabalho porque blá blá blá.
- Ahh... mas e se você decidir descansar um dia por mês, que tal? Que tal descansar no primeiro dia de cada mês?
- Isso iria ser bom. Mas agora mamãe tem que trabalhar, eu não posso parar, o cliente está esperando eu terminar este serviço.
- Mas mãe, você tá trabalhando demais! Vamos combinar que no primeiro dia de 2011 você não trabalha?
- Tá bem! Eu prometo!
- Mas... e seus clientes?...
- Eu volto a trabalhar dia 2.
- Então tá legal.
E essa foi minha promessa, que está di-fí-cil de cumprir. Mas falta só mais um minutoooo!!!
Mas como ninguém nunca viu o Papai Noel?
O Bruno estava muito desconfiado que o Papai Noel não existia, porque ele ficou muito decepcionado quando soube que eu era a fada dos dentes. Durante o mês, ficou perguntando, perguntando e nós não sabíamos mais o que fazer para prolongar nossa sonhada fantasia de ser o bom velhinho. É tãaaao gostosinho, né? Até contamos a história do São Nicolau, mas ela é tão curtinha, nem dá tempo de enrolar legal.
- Pai. Eu acho que o Papai Noel é você.
- É mesmo?... mas por que você acha isso?
- Porque eu nunca ouvi nenhum barulhinho do Papai Noel chegando. Eu acho que quando eu vou dormir na noite de Natal, você sai de casa, compra meu presente e coloca debaixo da árvore!
Neste natal o Papai Noel ainda foi a figura mitificada pelo refrigerante, mas hoje mesmo ele resolveu reler a carta que veio junto com o presente e ficou desconfiado... acho que foi nosso último Natal em companhia do gorduchinho misterioso...
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
E passou o dia das crianças...
Passou o feriadão e o dia das crianças. Hoje foi mais difícil acordar de manhã, a água da torneira estava gelada. Não, não é justo levantar cedo e só conseguir começar a trabalhar duas horas depois... meu escritório é em casa!... Mochila, uniforme, lancheira, café da manhã, leite. Chega, não dá mais para adiar, é hora de acordar o pequerrucho.
Lá no quarto, há uma criança dormindo com todo o seu ser. Procuro seu pezinho debaixo do cobertor fofinho para ir acordando com uma massagem. Acho um pé de moleque, nem é assim pequeno. E aí o tempo pára... a correria cessa...
Toda manhã é igual: eu sempre me surpreendo com o pé dele que é maior do que me lembrava. E a mão também... Aproveito esse mini-instante de contemplação para comparar o tamanho da mão dele com a minha. Sempre é maior do que tenho na memória.
Ele está crescendo. Já trocou dois dentes, lê, escreve, aprecia Clarice Lispector, planta bananeira, joga xadrez. Eu nem sei mais por quanto tempo terei assunto para este blog. E sou tão agradecida por tudo que tenho aprendido, minha criança...
Outro dia me dei conta de que, de certa maneira, a maternidade foi responsável por muitos dos conhecimentos mais importantes que adquiri, inclusive profissionalmente. Além dos ensinamentos diretos que recebi de meu filho, estudei muito para me tornar um ser humano um pouco mais capaz de criar uma boa pessoa para o futuro. Eu não deixo de colocar em meu Curriculum Vitae este item importante: "Mãe". Nem sei se quem o tem em mãos vai se dar conta da extensão desse aprendizado, mas fico na esperança de que sim. Foram tantas vivências, tão ricas... para mim é muito claro como tudo contribui para minha profissão. Seja ela qual for.
Bom dia, Bruno... que soninho, né? Vem cá que eu te levo pra sala... ugh, que pesaaado. Uma risadinha dorminhoca.
Uns minutinhos e pronto. Acorda a criança, levanta a alegria, começa mais um dia.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Momento mágico da entrevista de gatos
Da nossa janela, uma noite de sexta-feira de marginal engarrafada. Quando finalmente a chave da porta gira, o Bruno se agita todo feito cachorrinho de estimação, procura um lugar pra se esconder e resolve virar uma pedra redonda bem no meio do caminho do pai.
Assim começa uma noite que se tranfosmará em momento mágico.
- Vamos brincar de gato-mia? - e o Bruno explica como funciona essa brincadeira que a gente tinha saudade e nem lembrava.
Ricardo de boca cheia de janta devorada, vai correndo alcançar a sobremesa e volta para a sala já escura.
- Gato mia!
E foi tudo tão, tão sinceramente divertido que "miau" se tornou uma palavra difícil de ser pronunciada às gargalhadas.
Fim da brincadeira, beicinho coletivo de quero mais. 3 gatos aninhados no sofá, a marginal já quase sem luz. E eis que começamos uma brincadeira de entrevistas que só mesmo sem enxergar os olhos do outro.
- E como você acha que vai ser sua vida agora que você está sem dois dentes?
- Legal. Vou impressionar os meus amigos.
- E por que você acha importante impressionar seus amigos?
- Não... eu não acho importante impressionar meus amigos, o importante é brincar com eles.
- E você fica impressionado quando um amigo seu perde um dente?
- Não.
- E quando perde dois dentes?
- Não.
- E três dentes?
- Ai! Cuidado com meu olho roxo que levou um golpe muito forte do amigo na escola.
- E qual era seu brinquedo preferido quando você era criança? E qual sua comida favorita? Ah, essa pergunta é nojenta, não vamos falar disso. E o que mais eu faço de legal além de trabalhar? Contar piadas? Não me diga que eu contei uma piada? Acho que no começo eu ia achar estranho, mas depois eu iria me acostumar de ser careca.
E assim fomos nos entrevistando, com os balões de diálogo emaranhados no escuro do sofá, até não dar mais para segurar a vontade de fazer xixi.
E de lá do banheiro, ao invés de um "não quero dormir! Dormir é chato!" saiu um gatinho de olhos caídos dizendo "mãaae, tô com soninho..."
Uma história repetida na voz de acalanto do pai e pimba. Dormiu. Mas ainda cheguei a tempo de dar um beijo e ganhar um enrosquinho final de gato adormecido...
... boa noite...
Assim começa uma noite que se tranfosmará em momento mágico.
- Vamos brincar de gato-mia? - e o Bruno explica como funciona essa brincadeira que a gente tinha saudade e nem lembrava.
Ricardo de boca cheia de janta devorada, vai correndo alcançar a sobremesa e volta para a sala já escura.
- Gato mia!
E foi tudo tão, tão sinceramente divertido que "miau" se tornou uma palavra difícil de ser pronunciada às gargalhadas.
Fim da brincadeira, beicinho coletivo de quero mais. 3 gatos aninhados no sofá, a marginal já quase sem luz. E eis que começamos uma brincadeira de entrevistas que só mesmo sem enxergar os olhos do outro.
- E como você acha que vai ser sua vida agora que você está sem dois dentes?
- Legal. Vou impressionar os meus amigos.
- E por que você acha importante impressionar seus amigos?
- Não... eu não acho importante impressionar meus amigos, o importante é brincar com eles.
- E você fica impressionado quando um amigo seu perde um dente?
- Não.
- E quando perde dois dentes?
- Não.
- E três dentes?
- Ai! Cuidado com meu olho roxo que levou um golpe muito forte do amigo na escola.
- E qual era seu brinquedo preferido quando você era criança? E qual sua comida favorita? Ah, essa pergunta é nojenta, não vamos falar disso. E o que mais eu faço de legal além de trabalhar? Contar piadas? Não me diga que eu contei uma piada? Acho que no começo eu ia achar estranho, mas depois eu iria me acostumar de ser careca.
E assim fomos nos entrevistando, com os balões de diálogo emaranhados no escuro do sofá, até não dar mais para segurar a vontade de fazer xixi.
E de lá do banheiro, ao invés de um "não quero dormir! Dormir é chato!" saiu um gatinho de olhos caídos dizendo "mãaae, tô com soninho..."
Uma história repetida na voz de acalanto do pai e pimba. Dormiu. Mas ainda cheguei a tempo de dar um beijo e ganhar um enrosquinho final de gato adormecido...
... boa noite...
Marcadores:
brincar,
Hora de dormir,
Momento mágico
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Se fosse um filme não seria convincente
Cenário:
Manhã ensolarada, céu azul-azul, jardim, flores, árvores, passarinhos, montanhas...
Personagens:
Menino de 6 anos, mãe e pai.
Menino de 6 anos olha para o alto e diz:
- Como é bom existir!!
Manhã ensolarada, céu azul-azul, jardim, flores, árvores, passarinhos, montanhas...
Personagens:
Menino de 6 anos, mãe e pai.
Menino de 6 anos olha para o alto e diz:
- Como é bom existir!!
Marcadores:
Felicidade,
Momento mágico,
Sabedoria
Assinar:
Postagens (Atom)



