terça-feira, 3 de maio de 2011

Como foi que escolheram meu nome?

Na escola, o Bruno está estudando sobre a passagem do tempo e o desenvolvimento do ser humano.  Eles estudaram a própria certidão de nascimento e pela primeira vez ele se deparou com os nomes completos dos avós.  Hoje, como lição de casa, ele ia fazer uma entrevista com os pais e começou a me contar no carro:

- Mãe, preciso te perguntar: como foi que vocês escolheram meu nome?

- Bem, primeiro nós pesquisamos sites de nomes de bebês  e anotamos os que mais gostamos.  Então conversamos "Ah, esse eu não gosto", "ah, este é legal".  Depois ficamos muitos dias tentando decidir entre os nomes preferidos.

Foi delicioso lembrar de nossa angústia na escolha do nome do bebê e de que já sabíamos bem como ele era de personalidade, antes mesmo de nascer...

Depois desse pequeno instante de silêncio, meu bebê exclamou indignado:

- Vocês escolheram meu nome pela... Internet????

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Incentivo à não leitura

Eram férias de janeiro e estávamos os três curtindo a ala infantil da Livraria Cultura.  Láaa no cantinho, beeeem no fundo, uma mãe puxou nervosa seu filho de cerca de 10 anos e lhe perguntou:

- Olha.  Tá aqui.  Quantos você vai ler?
- Mas mãe...
- TEM QUE LER.  QUANTOS VOCÊ VAI LER?
- Um.
- Um não. Quatro.
- Um.
- Então três.
- Dois.
- Tá bom, tá bom, dois então.  Vamo, escolhe logo, quais você quer ler? (...) Vamo, rápido, escolhe logo que eu quero sair daqui.

A bronca estava doendo em mim, então me movi para sair de perto.  Foi inevitável: ao me virar e dar um passo, num só relance vi que os livros que a mãe havia espalhado no balcão para o menino escolher eu não diria nem para o Bruno ler com seus 6 anos.  Era uma coleção de qualidade literária duvidosa, comercial, fininhos e claramente inadequados (para não dizer tontos) para um menino tão grande.

Quase chorando, o menino disse:

- Mãe, se você faz assim eu não consigo escolher!...

Aí sim a mãe foi delicada:

- ESCOLHE LOGO QUE EU NÃO AGUENTO MAIS FICAR AQUI!

Pobre mãe, tão pressionada pelo incentivo à leitura.  Embora tenha ficado muito indignada com sua postura, não a culpo, pois ninguém conseguiu fazê-la gostar de ler, ela mesma é vítima.

Hoje é dia nacional do livro infantil.  Eu sou absolutamente apaixonada por livro infantil e mesmo assim estou bem entediada com esses milhões de dias do livro que mais igualam o livro ao agrião.

Não se ensina o filho a gostar de livro (nem de agrião) se os pais e professores não tiverem este amor, verdadeiramente.  “Tem que comer”...ops.. “ler!” – não é lá muito motivador.

E não adianta disfarçar o livro de brinquedo.  Há espaço para tudo, mas oferecer um livro piscante ou com o personagem da moda achando que está incentivando a leitura é engano.  É como misturar o agrião bem picadinho no meio do feijão.

Também acho que teatrinhos e filminhos contando a história de um menino triste que descobriu a felicidade dentro dos livros só causa mais aversão.

Antes de promover um incentivo à leitura dentro de casa, o adulto precisa se convencer de que ele mesmo gosta de ler.  E não é preciso ser erudito, basta ler o que se gosta de ler, com prazer verdadeiro.  Difícil saber como começar? Pode ser o caderno de automóveis do jornal, revista feminina, folheto de supermercado.  Sei que não é fácil começar a gostar de agrião.  

Bem, foi mais um desabafo, porque sei que quem teve paciência para ler um post tão grande deve gostar bastante de ler. 

Aproveitando o gancho: já provou o agrião só com seus talos mais fininhos?  Ou mesmo só a folhinha?  Aquele talo grosso, quando colocado na sopa, murcha e perde o “ardido”, além de funcionar como um canudinho.  E refogado? Uhmmm...
 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ser filho numa metrópole

Quando fui buscar o Bruno na escola, ele já tinha planos para sua tarde:

- Mãe, quando eu chegar em casa vou fazer um livro. Você sabe, né, eu quero ser autor de livros quando crescer. E hoje vou desenhar uma história sobre os Angry Birds.

- Sobre o joguinho de celular?

- É, do celular do papai. Já que hoje eu não posso jogar porque papai está trabalhando, vou fazer um livro e mostrar para ele à noite.


Mas a noite chegou e seu pai não.

Era hora de dormir e tudo o que restava fazer era telefonar e lhe perguntar se estava perto ou se ainda estava preso no trânsito.

- Pai, onde você está?... ainda?!?! Aaaahh... – e desligou sem se despedir, tão frustrado que estava. – Papai ainda está no trabalho! Não é justo! Por que ele chega tão tarde em casa?

- É porque ele anda trabalhando muito, querido.

- Então deveria ser o contrário, ué. Se ele está trabalhando muito, deveria terminar o serviço logo e voltar cedo para casa.

Vestiu o pijama chorando. E eu fiquei pensando em quantas casas de São Paulo a cena se repetia naquele mesmo instante. Ele me pediu que o ajudasse. Como eu gostaria de consertar a rotina metropolitana, Bruno... Tudo o que pude lhe dizer foi que ele poderia ligar para conversar um pouco com o pai e lhe dizer boa noite. No começo ele achou que não era suficiente, mas respirou fundo, enxugou as lágrimas e discou o número do celular do pai.

- Pai... você pode conversar um pouco comigo?

Durante a conversa, seu coração foi se amansando com o colo que recebia via telefone. Contou-lhe sobre seu dia na escola, sobre o livro que tinha começado. E ainda recebeu a boa notícia de que papai estava a caminho de casa.

- Então, boa noite, pai. Enquanto você não vem, vou lhe escrever uma mensagem, tá legal? Tchau!

Correu para pegar um lápis em seu estojo e me pediu uma folha de papel.

- Mãaaaae, como se escreve “coisa”?

E desatou a escrever, rápido como o ritmo de seu coração, feliz pela idéia genial que teve para se sentir mais perto do pai. Começava com “Querido papai, eu tinha tanta coisa para te mostrar...” e continuava de um jeito... que não foi possível manter meus olhos secos.

- Mãe, podemos rezar para o papai conseguir chegar mais cedo em casa?

Sentamos em sua cama, e ele começou:

- Papai do céu, ajuda o papai a voltar mais cedo do trabalho e a sair mais cedo para o trabalho. Amém.

Depois que li uma história, ele se aninhou no travesseiro e pareceu adormecer. Encostei a porta. Cinco minutos depois, a chave girou na sala com seu barulho inconfundível, que sempre anunciava a chegada de alguém muito amado. Bruno abriu a porta de seu quarto e saiu correndo abraçar o pai.

E como criança tem prioridade na fila de preces, papai do céu fez meu marido dizer, inocente:

- Amanhã, vou sair mais cedo e levar o Bruno para a escola, posso?

E viveram sonolentos e felizes, por todo o dia seguinte.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pós-graduação: as relações interpessoais na escola e a construção da autonomia moral

Comecei a fazer esta especialização no ano passado movida pela necessidade que senti em conhecer melhor como se dá a recepção da criança e fui atraída especialmente pela disciplina sobre Literatura Infantil.  Hoje sou apaixonada por todo o tema e sou mais feliz por conhecer o trabalho de educadores que remam contra a maré para criar um mundo mais ético e pessoas mais felizes.

O que isso tem a ver com meu trabalho como ilustradora?   Para mim, tudo.  Minha paixão pela Literatura Infantil vai além do desenho.  E não consigo me convencer de que não se deve pensar na criança ao criar uma obra literária.  Acho que há uma certa confusão com a infantilização da cultura que, aí sim, é menosprezar a inteligência das crianças.  


 Clicando na imagem, fica mais fácil enxergar as informações.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Feliz ano novo!

Hoje é o primeiro dia de 2011.   E eu fiz uma promessa ao Bruno para o dia de hoje.

Embora seja difícil de acreditar, quem tem escritório em casa também trabalha muito.  Sim, sim, eu sei que é difícil de imaginar como pode ser considerado trabalho uma ocupação que não exige pegar trânsito e nem comer fora, e ainda por cima com uma geladeira, uma TV e um filho do lado.  Só pode ser fácil né?  Pois nos modernos dias de hoje em que o Home Office é "In" eu ainda passo raiva porque a grande maioria das pessoas não consegue imaginar como pode ser duro trabalhar em casa.  Eu nem vou descrever como é, apesar de ser hilário, porque estou aqui para contar sobre a promessa que fiz para o Bruno.

Ele sabe bem, muito bem, que eu tenho meus trabalhos para fazer em casa.  E ele percebe como estou ficando esgotada nesse fim de ano (ã, quê?  O ano novo já chegou?).  Então ele disse:

- Mãe, quando você terminar seu trabalho, você vai poder tirar férias?

- Bruno, quando eu terminar este trabalho, vou começar outro, e eu espero muito que surja outro e que nunca pare de chegar trabalho porque blá blá blá.

- Ahh... mas e se você decidir descansar um dia por mês, que tal?  Que tal descansar no primeiro dia de cada mês?

- Isso iria ser bom.  Mas agora mamãe tem que trabalhar, eu não posso parar, o cliente está esperando eu terminar este serviço.

- Mas mãe, você tá trabalhando demais!  Vamos combinar que no primeiro dia de 2011 você não trabalha?

- Tá bem!  Eu prometo!

- Mas... e seus clientes?...

- Eu volto a trabalhar dia 2.

- Então tá legal.

E essa foi minha promessa, que está di-fí-cil de cumprir.  Mas falta só mais um minutoooo!!!

Mas como ninguém nunca viu o Papai Noel?


O Bruno estava muito desconfiado que o Papai Noel não existia, porque ele ficou muito decepcionado quando soube que eu era a fada dos dentes.  Durante o mês, ficou perguntando, perguntando e nós não sabíamos mais o que fazer para prolongar nossa sonhada fantasia de ser o bom velhinho.  É tãaaao gostosinho, né?  Até contamos a história do São Nicolau, mas ela é tão curtinha, nem dá tempo de enrolar legal.

- Pai.  Eu acho que o Papai Noel é você.

- É mesmo?... mas por que você acha isso?

- Porque eu nunca ouvi nenhum barulhinho do Papai Noel chegando.  Eu acho que quando eu vou dormir na noite de Natal, você sai de casa, compra meu presente e coloca debaixo da árvore!

Neste natal o Papai Noel ainda foi a figura mitificada pelo refrigerante, mas hoje mesmo ele resolveu reler a carta que veio junto com o presente e ficou desconfiado... acho que foi nosso último Natal em companhia do gorduchinho misterioso...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

E passou o dia das crianças...


Passou o feriadão e o dia das crianças.  Hoje foi mais difícil acordar de manhã, a água da torneira estava gelada.  Não, não é justo levantar cedo e só conseguir começar a trabalhar duas horas depois... meu escritório é em casa!... Mochila, uniforme, lancheira, café da manhã, leite.  Chega, não dá mais para adiar, é hora de acordar o pequerrucho.

Lá no quarto, há uma criança dormindo com todo o seu ser.  Procuro seu pezinho debaixo do cobertor fofinho para ir acordando com uma massagem.  Acho um pé de moleque, nem é assim pequeno.  E aí o tempo pára... a correria cessa...

Toda manhã é igual: eu sempre me surpreendo com o pé dele que é maior do que me lembrava.  E a mão também...  Aproveito esse mini-instante de contemplação para comparar o tamanho da mão dele com a minha.  Sempre é maior do que tenho na memória.

Ele está crescendo.  Já trocou dois dentes, lê, escreve, aprecia Clarice Lispector, planta bananeira, joga xadrez.  Eu nem sei mais por quanto tempo terei assunto para este blog.  E sou tão agradecida por tudo que tenho aprendido, minha criança...

Outro dia me dei conta de que, de certa maneira, a maternidade foi responsável por muitos dos conhecimentos mais importantes que adquiri, inclusive profissionalmente.  Além dos ensinamentos diretos que recebi de meu filho, estudei muito para me tornar um ser humano um pouco mais capaz de criar uma boa pessoa para o futuro. Eu não deixo de colocar em meu Curriculum Vitae este item importante:  "Mãe".  Nem sei se quem o tem em mãos vai se dar conta da extensão desse aprendizado, mas fico na esperança de que sim.  Foram tantas vivências, tão ricas... para mim é muito claro como tudo contribui para minha profissão.  Seja ela qual for.

Bom dia, Bruno... que soninho, né?  Vem cá que eu te levo pra sala... ugh, que pesaaado.  Uma risadinha dorminhoca.

Uns minutinhos e pronto.  Acorda a criança, levanta a alegria, começa mais um dia.