quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre o desastre de Mariana

Bruno com 11 anos. Puxa vida, onze anos. Está passando 2015 com seus sentimentos tão divididos. Descobrindo coisas novas em sua vida e, já com saudade, se despedindo da infância.

Hoje perguntei para ele se estavam comentando nas aulas sobre o desastre da barragens que se romperam em Mariana. Ele disse que não. Então lhe contei o que estava acontecendo. Ele ficou mal, indignado com a falta de pensar no outro, com o egoísmo dos seres humanos, ficou se sentindo muito pequeno e impotente.

Dei a ideia de levar o assunto para a escola amanhã, na aula de História ou Geografia. Então ele me disse a coisa que a gente mais precisa escutar:

- Eu não quero falar desse assunto para fins de estudo. Eu quero ajudar!!

E é realmente diferente.

Será que quando estudamos moralidade, tornamo-nos mais morais? A resposta é não.  Quando estudamos moralidade, estamos adquirindo conhecimentos teóricos. Não estamos exercitando a bondade, a generosidade, a moralidade, a ética.

Falar sobre fazer o bem não nos torna bons, como já se dizia desde antes.

E é isso que estamos fazendo no facebook. Comentando sobre ser ou não bom, generoso e humano. E o que, de fato, estamos fazendo?

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Saudade



Papai viajou e Renato aprendeu a falar "saudade".

E ficou a semana inteira: "mamãe... papai... sôdade"... "papai... tchau tchau... sadade"

Uma vez que acordou de um cochilo perguntou:

- Buno?

- O Bruno está na escola, Renato.

- Qui sadade!

Também pegava o telefone e conversava:

- Vovó!  Sadade!

A gente pensa que criança pequena pouco sente. Que depois esquece. Que tipo de esquecimento será que é? Que tipo de lembrança será que fica? Sim, penso nos órfãos. Me dói só de imaginar o tamanho do sofrimento que esses pequenos precisam superar e fingir pra si mesmos que esqueceram...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Renato fez 1 ano!

Muitos momentos marcantes aconteceram, como quando andou de repente longos 3 metros no dia do batizado.

Tantos foram os avanços na sapequice que o Conversa de Penico teve que ficar no plano das ideias.

Renato explora tudo o que pode no apartamento.  Como me dói uma área tão limitada.  Fico pensando se ele pararia de mexer no fogão, na máquina de lavar roupa e no lixo se ele vivesse num lugar amplo, na natureza.


Quando abro a geladeira, Renato vem de mansinho e rouba um limão. Nhac!


Outro dia fomos ao zoológico de Itatiba.  Remexeu o cascalho e zap!  Estava quase levando uma lagarta verde, bem lagartosa, rumo à boca. Agarrou com seus dedos em pinça tão firme que deu dó da pobre lagarta.  Duvido que tenha sobrevivido.  Se sim, virou uma borboleta manca.

Aqui nesse caixote apinhado e espremido, é impossível não ligar a televisão e o youtube. Sorte a dele que o repertório é chique: Palavra Cantada, Grupo Triii, Barbatuques.  Confesso que por curiosidade já testamos aqueles vídeos impossíveis de gostar, mas que a lavagem cerebral social insiste em dizer que criança fica vidrada. Demos risada: se o vídeo é ruim,  ele solta um gemido de tédio beeem comprido.

Um dia, ele estava vendo TV e eu chamei para almoçar. Desliguei o aparelho e fui levá-lo para a cozinha.  Ele se esgueirou, pegou o controle remoto e correu para a cozinha antes de mim.  Quando cheguei, ele estava apertando os botões, de frente para o forno.  Nesse mundo que tem vídeo no computador, na TV e em tudo que é aparelho que desligado é escuro e tem reflexo da gente, é preciso mesmo testar se não passa Tum-pá no forno ou na lavadora de roupas, né?

E aqui um de seus testes de intercâmbio:  eu estava fazendo o almoço e o Renato se pôs a remexer armários e gavetas, como sempre.  Dessa vez encontrou um cortador de biscoito.  Ficou olhando por cinco segundos.  Zap!  Sumiu pela porta.  Fui olhar.  E encontrei essa cena:



Como é que acontece de nós adultos não termos mais ideias como essas? Como é que nunca pensamos em colocar a peça de uma de nossas gavetas cerebrais em outras? Por que temos nojo de bichos asquerosos? Enfim, que raios fazemos com as crianças para se tornarem adultos com preconceitos?

Que os anjinhos dos meus filhos os protejam dos nossos erros de criação!...

Sonhar alto




Depois de um café da manhã de sábado, Bruno larga o Youtube e vem nos contar:

- Mãe, pai, sabe o que eu fiquei sabendo? Não é que eu quero isso não tá? Lá no Youtube, quem atingir um milhão de inscritos, que eu sei que é impossível pra mim, ganha uma marca dourada!!

A novidade foi perdendo o brilho e a carinha do filhote foi murchando. Saiu pro quarto mas não conseguiu esconder a cara triste que resolveu aparecer.

Eu podia deixar pra lá.  Ah, bobagem. Logo passa, não é?


***


Eu tinha onze anos quando entendi: ser adulto maduro era parar de sonhar.  Mas eu achava errado. E decidi que minha luta seria ir contra isso.  Sem querer, isso foi ficando aqui comigo.  Sem eu nem perceber, nunca me afastei dessa missão.  E só me dei conta agora, quase com 40.


***


Olhei meu filho de quase onze anos pré-frustrado porque achava impossível atingir a marca de um milhão de inscritos no seu canal.

Fui lá.

Conversei com ele um montão.  Pra resumir a conversa, vai aqui a frase do horizonte do Eduardo Galeano.  Conhece?


“La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. ¿Entonces para que sirve la utopía? Para eso, sirve para caminar.”





***


Demorou para eu entender que não é falta de maturidade ser sonhador. Passei a maior parte de minha vida sem desconfiar que esses meus sonhos sempre tão altos, tão distantes, são o que me fazem querer ser sempre uma pessoa melhor. São minha motivação. Sonhos lindos.


***


Perguntei ao Bruno como é que ele ficaria mais contente: atingindo 1 milhão de inscritos com um canal em que ele postasse vídeos semanais pagando mico, ou chegando aos 50.000 inscritos com vídeos falando sobre games e outros assuntos que ele gosta.

Então com suas próprias respostas ele concluiu:

- Meu sonho não é atingir um milhão de inscritos.  Meu sonho é gravar bons vídeos.




Quero que ele sonhe alto, muito alto. E que voe para alcançar, bem alto.  E que comemore cada etapa concluída, cada vitória rumo aos sonhos.




Daí o Renato entrou no quarto com seus passinhos de um ano de idade. Já foi logo tagarelando e remexendo os carrinhos do irmão.  Bruno pegou seu Daruma da estante.  Por muito tempo ele só tinha um olho pintado.  Foi marcante pintar o segundo olho, um momento de gratidão.

Com o Daruma entre as duas mãos em conchinha, sorriu para o Renato que botava o quarto dele de pernas para o ar.

- Sabe mãe. Vale muito a pena sonhar.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Momentos mágicos da janela do apartamento

- Mãe, mãe, vem ver!!  Tem um ataque de pombos aqui na janela!!

Bah, pombos.  Quando o Bruno nasceu, uma pomba fez seu ninho na janela do banheirinho do fundo do apartamento, argh, que nojo aquela pomba com um ninho num apartamento que deveria estar imaculado com meu bebezinho novinho.

- Mãe, é sério! É a revolta dos pombos aqui na janela. Vem-vêeeeee!!!

- Tô indo, tô indo!  - larguei a cebola picada pela metade e lá fui na janela da sala.  Sorri.  Sorri muito.  Lasquei um beijo no Bruno.  Eram muitas, e lindas, voando leves e sapecas.

- Bruno!!  São andorinhas!  Adoro andorinhas.  O verão vem vindo, elas passam por aqui na cidade nessa época.

Foi a primeira vez que vi andorinhas na minha janela de apartamento.

Tenho uma lembrança muito, muito doce de andorinhas...  Eu morava no sítio e cursava o colégio.  Tinha varado uma madrugada fazendo o trabalho de conclusão do curso e o sol começou a nascer laranja, laranjíssimo. Da janela de vidro antigo riscadinho eu pude ver que havia uma movimentação diferente lá fora.

O sol nascia dentro do nosso horizonte. Grande, gigante, contente.  E chegava o verão, as andorinhas voavam loucamente por todos os lados, riscando o céu e quase o chão.  Elas passavam rente a mim, sobre minha cabeça, sobre meus ombros.  E então senti nos meus ombros as mãos do meu pai.  Ele ficou uns minutinhos olhando as andorinhas, o sol, apertou meu ombro e entrou para fazer o café.  Não falamos nada (não eram nem 6 da manhã, poupem-me).  Mas sabíamos que aquela cena era especial.

Eu queria dar para meus filhos essas cenas especiais.  Para mim dói ver andorinhas com a Marginal engarrafada de fundo.  Um, porque se elas estão aqui é porque não têm mais para onde ir.  E dois, porque eu queria que o Bruno visse andorinhas do chão, não do alto de um prédio.  Cercado de árvores.  Perto de um riachinho vivo.



Eu queria que o Renato contemplasse a chuva pela primeira vez numa varanda aberta.  Sentindo cheiro de terra molhada.  Vendo os cachorros fugindo pra se esconder.  Ouvindo os passarinhos cantando um a um no fim da tempestade.  E não na janela do apartamento, vendo a chuva passar pela grade, pela rede de proteção e caindo nessa sacadinha de nada.

Bem, eu queria.  Mas foram momentos mágicos mesmo assim.  Ver o Bruno e as andorinhas.  O Renato e a chuva.

domingo, 21 de setembro de 2014

Reviravolta

Anteontem foi um daqueles dias do Renato que a gente precisa deixar registrado: ele virou de bruços!!

Um marco porque ele já vinha treinando isso há muito tempo e ficou muito contente por ter conseguido.  Para cair a ficha de juntar um conhecimento (o de ficar de bruços) com outro (o de deitar de lado chupando o dedo escodido debaixo da naninha), demorou.



Para ele, ficar deitado no chão era uma coisa.  Ficar deitado no berço, outra.  No chão, ele percebeu que se alguém mexia com ele, ele se divertia à beça mas em contrapartida ficava no maior tédio quando ficava deitado de barriga pra cima.  Nem tchum de ele tentar deitar de lado.  Era a gente sair de perto que ele começava a chamar a gente.  Mas no berço, ele sabe que está na mão dele: lá ele tenta dormir sozinho, chupa o dedo, papeia com a lâmpada, e sei lá mais o que eu não vejo.
  
E nós?  Também.  No chão, a gente incentivava ele a ficar de bruços, a maior farra.  No berço, não.  No berço é "boa noite".

Até que na quinta-feira eu fiquei brincando e rodeando em volta do berço, dei um petelequinho e pumba.  O bichinho virou de bruços e caiu-lhe a ficha.

No chão, deixei ele com sono e a naninha do lado, para mostrar o contrário.  E pumba, ele virou e caiu outra ficha.

E crescidos nós continuamos os mesmos, não?  Só um pouco mais teimosos, mais hipermétropes, mais travados.   Pra dar uma reviravolta, custa pra cair a ficha.  Ficamos na zona de conforto, agarrados ao que é de costume.  Para mudar de estágio, subir um degrau, às vezes é só uma mudança de atitude.  Mas para mudar de atitude, é preciso abandonar nossas velhas convicções: no chão eu só saio dessa posição com a ajuda de um adulto, no berço eu não fico de bruços.  Neste trabalho eu só saio dessa posição com a ajuda de um adulto, em outro trabalho eu não me sustento.

Agora a luta dele está sendo engatinhar. Ele fica nervoso quando levanta os braços e as pernas, tenta nadar, tenta voar com toda a velocidade e não sai do lugar.

(Uhmm!...)

domingo, 20 de julho de 2014

Mas… e como vão as coisas?

O Renato está com 4 meses.  O Bruno fez 10 anos e está de férias.  Fácil não está sendo não: tenho que varrer o chão mais vezes porque meu cabelo está caindo adoidado.  Mas a verdade verdadeira mesmo… é que está tudo na mais santa paz!...






Bronca merecida

Pois aquela bronca foi muito merecida, ah... se foi!

O sol começou a se pôr e eu fiquei bastante irritada.  Mais um dia tinha se acabado com produtividade zero.  Na cozinha comecei a guardar a louça ruidosamente e o Bruno veio prestativo:

- Mãe... se acalma. Você sempre me diz que quando estamos nervosos não conseguimos fazer nada direito.  Olha, toma um copo d'água.

Mas eu estava nervosa e então não fiz nada direito:

- Eu não quero água.  Aliás, você passou a tarde inteira sem tomar água.   E é hora de tomar banho.

Ele foi.

Ora essa agora.  Eu sem tempo nenhum, lá podia me dar ao luxo de ficar calma?  Terminei de arrumar a louça e quando passei perto da porta do banheiro pude perceber que o Bruno falava sozinho no chuveiro e pelo tom suspeitei que tinha a ver comigo.  Não dava pra deixar pra lá, eu tinha que respirar fundo, manter a compostura e lhe explicar que minha situação estava complicada.

- Bruno… o que você tem para me dizer?

- Olha mãe… quando você está calma e me dá uma bronca, eu aceito.  Porque você é minha mãe, eu sei que você quer o meu bem e eu confio em você.  Mas quando você está nervosa e me dá uma bronca… daí não dá pra confiar.

Senti todos os nós musculares de tensão se desfazerem e minhas pernas amolecerem.  Minha raiva se derreteu com os hormônios do amor materno circulando pelo corpo.  Eu não tinha razão nenhuma, não havia nada a defender e por sorte consegui lhe pedir desculpas como exigia a situação.  Fiquei até orgulhosa em receber uma bronca tão justa...

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Uma pequena pausa para registrar um auto-lembrete

- Ai, Bruno, tô pifando!!…

- Não pife, mãe, não pife.  Você é mãe!


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Conversa de Penico apresenta… Renato!

Conversa de Penico tem o prazer de lhes apresentar o novo integrante dessa família… ele!  Que nasceu há quase 1 mês, com 40 semanas e 3 dias de gestação, de parto normal, pesando 4kg e medindo 51,5 centímetros… Reeeenato!!


Esse é o enfeite de porta de maternidade que o Bruno pintou para o irmão

Sim, já faz quase um mês.  É que como em toda casa das antigas com nenê recém-nascido, a rotina se destrambelhou e tudo o que conseguimos fazer foi pensar "mas como é que as pessoas conseguem postar fotos na mesma hora do nascimento?".  As bochechas do Renato já cresceram 4 cm e 800 gramas desde então e mesmo assim esse post vem sendo escrito aos tranquinhos, entre mamadas, trocas de fraldas, unhée pra cá e acolá.

E sabe?  Tem sido um mês in-crí-vel… não é à toa que se criam os chavões.  É que há verdades que quando a gente prova são mesmo verdadeiras.  Quando nasce o segundo filho, nasce mesmo mais amor.  E mesmo que pareça impossível amar alguém tanto quanto se ama o primeiro, o amor vem grande, nasce junto na hora do parto.

Também foi novidade ver que dá vontade de ter os dois sempre juntos e agarrados na gente.  E é como se um amor fosse todo emaranhado no outro, como se fosse um amor só, bem grande, bem gigante.  E quando a gente vê o irmãozão perto do irmãozinho, como nessa foto, o coração esquenta e o mundo parece sumir.  É lindo.





domingo, 16 de março de 2014

Falta só um pouquinho...

Estamos na 40a. semana de gestação e a cada dia meu corpo dá novos sinais de que o trabalho de parto vai começar.  A ansiedade e a sensação de que ainda faltam detalhes para se acertar se misturam com a necessidade de manter a calma e ir seguindo com a vida normal para não enlouquecer de tanto esperar.  E esse caloooorrrrr que não passa!!!... Olho a previsão do tempo para a semana e o sol vai continuar de rachar.  A barriga cresce, desce, dói e nada de trabalho de parto.  E o calor que não passa.  E a lombar que dói. Tem hora que acho que o nenê vai nascer hoje.  Tem hora que acho que não vai nascer nunca. Igual esse calor que não vai embora nunca. Desespero de grávida deve ser engraçado de ver, porque parece tudo tão à toa...

Bem, aproveitando esses últimos dias de gestação, vou recomendar o documentário O renascimento do parto.  Resista a uma certa antipatia que causa sua página do Facebook por seus depoimentos cheios de mulheres se auto-coroando.   Tudo bem, a mulher tem o direito de se sentir de um jeito ou de outro se parir assim ou assado mas, ora, o que importa mesmo é o que o parto vai significar para a criança, para sua saúde, seus laços afetivos, seu desenvolvimento.  Mas o filme mesmo não é assim, vale a pena assistir.  Ele mostra os benefícios do parto normal ao desenvolvimento do bebê e alerta para o número absurdo de cesáreas desnecessárias no Brasil.



E o parto é só o início.  Os estudos não acabam com a apostila do curso de gestante, como muita gente pensa que é.  Fico pensando se no momento de engravidar passa pela cabeça das pessoas tudo o que envolve a criação de um filho.   E às vezes acho que para muitas delas é só se preocupar com o enxoval do bebê que o resto a vida vai dizer o que fazer, não é preciso nem buscar a informação que ela cai no colo.

Ufa, grávida é mesmo um bichinho duro de aturar, heim?  Só reclamação...
É que você não imagina o calor que tá aqui!



sábado, 15 de fevereiro de 2014

O irmão da barriga


- Mãe, é incrível como eu posso amar tanto assim um serzinho que eu nem sei como é... que eu olho... e é uma barriga!

O irmão mais velho da barriga está curtindo com todo o coração esse tempo de ansiedade e espera pelo companheiro tão desejado.  Mais um mês e ele vai poder pintar o segundo olho de seu boneco Daruma pelo pedido atendido.

O Bruno está participando ativamente dos preparativos, cuidando de mim, contando as semanas, fazendo planos, querendo ter uma responsabilidade maior até do que lhe cabe.

Junto com essa vontade toda tem também um pouquinho de insegurança pela diferença de idade - vão ser quase 10 anos. 

- Será que meu irmãozinho vai me amar? Será que eu vou conseguir brincar com o Renato? Logo logo vou ser adolescente e não vou mais aproveitar!...

Pra você ver como um comentário nosso pode ser interpretado de outra maneira por uma criança.  A adolescência pode ser vista como o fim dos tempos!!  Imagina só, não ter mais vontade de brincar!  Apocalíptico.

E também rola aquele medinho de ser esquecido.

- Mãe... eu sei que o nenê vai tomar toda a atenção de vocês no começo, porque ele vai ficar chorando e mamando o tempo todo... mas... e quanto ao amor? – e me olha com os olhinhos derretidos, quase tristes.

- Não se preocupe, Bruno.  O seu amor é só seu.  A gente não divide o amor que já existe quando começa a gostar de alguém.  Nasce mais amor.

E vai ser tão incrível... Duas criaturinhas inimaginavelmente diferentes pra se amar.  Vai ser delicioso andar na vida de ponta-cabeça novamente. 





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Itadakimassu! - Momento mágico

Hora da janta, um descuido repetido, desperdício, bronca.  Limpou-se a lambança, choro e sentimento de injustiça:

- Foi só um acidente, poxa!!  Acidentes acontecem!!

- Bruno, o que me deixou brava não foi a bagunça.  Foi o desperdício de comida e o desrespeito com o trabalho que eu tive de fazer a janta.  Você viu quanto tempo eu levei pra fazer a janta.

Então o rosto dele mudou.  Caiu uma ficha nele.

Refiz o prato dele porque, por sorte, ainda havia mais na panela.  Jantamos de cara fechada.  Quando ele ficou satisfeito, sentou do meu lado.

- Na hora eu achei que você tinha ficado brava por causa da sujeira e fiquei muito confuso.  Mas depois entendi.  Desculpa.

Eu expliquei pra ele então um conceito que aprendi há pouco tempo de uma prima muito querida: o do "Itadakimassu".  "Itadakimassu" é uma palavra que funciona como a oração antes de comer.  O conceito mais difundido é o de agradecimento à pessoa que está fazendo a comida.  Mas as crianças modernas do Japão estão deixando de falar "Itadakimassu" porque se come muito fora de casa, e então elas pensam "meu pai está pagando pra ele fazer essa comida, eu não preciso agradecer".

Porém esse é um agradecimento que vai além, vai também para os agricultores, para todas as pessoas envolvidas no processo da comida chegar até nossa mesa, para a natureza que possibilitou a existência dessas hortaliças, para o animal que foi sacrificado para nos alimentar.

Pela carinha do Bruno, caiu mais uma ficha.  Ele se sentou ainda mais aninhado em mim, como quem quer ouvir mais.  Contei mais uns causos clássicos sobre situações extremas de falta de comida.  É, a gente gosta de conversar longamente depois de uma briga, uma mania de nosso núcleo familiar, sei lá...

Então perguntei:

- Vai bem uma panquequinha de sobremesa?

Ele ficou perplexo.  Depois de tudo, ele ainda ia ganhar uma panqueca?

- Um minutinho, mãe, um minutinho...

Foi até ali e um pouco depois voltou:

- Dessa vez eu é que vou fazer o sacrifício de fazer a panqueca!

E ficou fofinha que só com amor mesmo.  Repartida como nas aulas de fração.


E assim tivemos mais um momento mágico...


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Lambuzar é preciso



Amo essa foto.  Aqui o Bruno tinha 11 meses.  Pra matar a curiosidade, os alimentos que posam para a foto são arroz, feijão preto (não era feijoada não, heim), beterraba e uma verdura irreconhecível.  E posso garantir que  a lembrança mais forte dessa época não é a de ficar limpando o chão.  É a de ver a carinha dele se deliciando.  A lambança não foi em vão: hoje ele adora brócolis, quiabo, bardana, tofu.

O que me fez sacar essa foto do fundo do baú foi este post sobre um método de introduzir alimentos sólidos a bebês que eu não conhecia:


Eu não teria coragem de oferecer uma coxa de frango a um nenê de 6 meses como o do primeiro vídeo, mas esses exemplos extremos são inspiradores para reavaliar medos, neuras, conceitos de assepsia e preguiças.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Para um dia se lembrarem




Desejo me lembrar desse instante para sempre.  Não quero me esquecer do quanto gosto de ver como seus traços são tão parecidos, como são tão companheiros, cúmplices, tão filho de um e pai do outro. 

Quero também que vocês não se esqueçam. Vêem? Como é especial esse minuto? Percebem que esse instante tão corriqueiro, na sala de casa, num abraço, numa partida de xadrez, numa caprichada escovação de dentes, num jogo do Brasil, na passada hora de dormir, é o que depois vai ter sido importante? A vida de vocês, juntos, pai e filho.  Queria tanto que vissem o que eu posso ver daqui de canto.  Que esse minuto de vocês, juntos, não vão lembrar por inteiro.  Que vai se acabar e que amanhã já quase não terá importância.

Mas olhem, meninos, amanhã é muito cedo.  Amanhã essa lembrança não vale nada, mas quando esse pequenino crescer, quando tudo estiver às avessas, esse minuto será a vaga lembrança, cada dia mais nítida, do que vocês verdadeiramente são. 


domingo, 30 de junho de 2013

Momento mágico do lençol branco

Eu ainda não tenho coragem de levar o Bruno para uma manifestação.  Mas também não podia deixar passar batida aquela segunda-feira marcante da história de nosso país.  Foi uma segunda em que até o ar da manhã estava diferente, afoito, ansioso pelas badaladas das 17h.

Então peguei o lençol branco e andei de uma janela a outra do apartamento, até encontrar uma em que ela ficasse bonitona balançando ao vento do décimo oitavo andar.

O Bruno até tentou se manter indiferente em meio aos seus games, mas não é sempre que a mãe se põe a colocar um lençol branco na janela por causa de uma notícia da TV.  Algo diferente estava acontecendo, ele sabia.

- Olha, Bruno, toda essa gente está se reunindo para uma manifestação.

- Deixa eu ver quem mais colocou lençol branco na janela. (...) Xii, mãe, nós somos os únicos aqui do nosso condomínio.

- Não tem problema não, Bruno, a gente faz nossa parte.

Uma parte tão pequena, eu sei, naquele momento era uma participação muito miúda.  Só que eu sei, eu realmente acredito que assim, pequenininho, estou participando de uma maneira grande sim, formando um cidadão.

- Olha mãe, já estão contando que são 40 mil!

E juntando um pequeno cidadão aqui e outro acolá, de repente temos uma nação que cresce.

- E no Rio de Janeiro já são 100 mil!!!

E assim, simbolicamente, o Bruno guardou com carinho sua participação naquela segunda-feira de manifestações.  Acompanhou maravilhado a multidão tomando as ruas do país, mostrou  com entusiasmo ao pai o lençol branco balançando no escuro, contou-lhe sobre os números de manifestantes  - que na hora não importava se eram 65, 100 mil, um milhão.  Eram muitos.

Aquele dia, naquele dia, eu sei que não foi nada.  Só que eu acredito que esse esporo de cidadania um dia vai eclodir da memória, em forma de força extra para fazer a sua, a sua parte, na confiança sobre a união de forças, numa luta que pode parecer solitária olhando daqui da janela.

Amanhã vai ser maior.  Tudo começa pequeno. Amanhã vai ser maior!...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

9 anos: xeque-mate


9 anos!... Quando foi que tudo isso aconteceu? Se quando o Conversa de Penico começou ele era campeão de frases fofas, hoje ele é um grande estrategista nos argumentos.
(Psiiiu... não conta pra ele que eu continuo achando ele fofo... é meu filhote, vou fazer o quê?!?!)

Ele andou uns dias testando até onde ia nosso limite quanto aos seus horários.  Apesar de ser responsável por administrar seu tempo para fazer lição de casa e suas tarefas, andava adiando, adiando, até que chegou o dia em que eu disse que era hora de dormir e só então ele foi fazer lição. Aí pegou.

- Bruno, você não está mostrando que tem responsabilidade pra controlar seus horários.  A partir de agora, eu é que vou controlar seus horários.

- O quê?? Eu vou ter que seguir os horários que você mandar?

- Sim. Só vai brincar e assistir TV depois de fazer todas as suas tarefas.  E pra ter de volta sua liberdade com os horários, vai ter que me provar que é responsável o suficiente pra isso.

Uhm. Pra quê, né?

- Mas mãe!... se eu não posso controlar meus horários, como é que eu vou poder provar que posso controlar meus horários?!?!

Não adianta, não há espaço para deslizes. Sempre há uma brecha na legislação que ameaça a ordem.

Por outro lado, com tanta maturidade, ele também toma conta de mim:

- Mãe... o que você tem? Você tá bem? - ele disse, meio alarmado

- Tô sim, Bruno.  Só tô com sono, muito, muito sono.

E fui para o computador.  O Bruno veio atrás.

- Mãe!!!  Se é só facebook, vai dormir!!!

E assim, de xeque em xeque, vamos entrando na pré-adolescência.  E eu fico aqui pensando até quando será que vou continuar achando ele um fofo...





segunda-feira, 25 de março de 2013

O brincar de hoje e o de sempre

Um dia estávamos pintando um quarto aqui em casa e desligamos o modem.  Passa uma hora, passam duas, até que o Bruno perguntou ao pai:

- Quanto tempo vamos ficar sem Internet?

- Acho que o dia todo, filho.

- O QUÊ?!?! O dia todo??? Como é que eu vou ficar o dia todo sem Internet??

E como "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais"...

- Sabia que quando eu era criança nem existia Internet? A gente passava todos os dias sem Internet.

Pronto.  Com a bola levantada, Bruno fez ponto:

- É.  Não tinha Internet, mas tinha quintal!

Só para lembrar o que muitos já dizem por aí, nada adianta proibir a criança de ver televisão ou de jogar videogame.  Se ela mora num apartamento, que opções ela tem?  O Bruno ainda é filho único e seus brinquedos têm a péssima mania de não serem tão divertidos quanto brincar com outras crianças.

Ué, e por que não levamos ele para brincar no campo, por que não mudamos para uma casa, por que não saímos de São Paulo?  Talvez estejamos enroscados demais na rotina da cidade e de todo o trabalho diário que ela nos exige que nem sabemos fazer isso, como se estivéssemos correndo sem parar numa esteira de academia, de frente para uma parede de vidro.  Sabendo que o mundo está lá fora, que basta diminuir a velocidade até ela parar e então sair.  Porém presos ao contador de tempo, de calorias consumidas, de batimentos cardíacos, de quilometragem...

E quando vejo um vídeo como este, do Território do Brincar, eu me sinto muito mais próxima de um hamster engaiolado:



Claro que há o contraponto da educação, cultura, acesso ao trabalho e tudo mais, tanto que são estas as questões que sempre ganham na nossa balança.  E por isso mesmo é que sinto tão necessário contemplar este brincar autêntico, deixando chegar as lembranças da própria infância, refletindo sobre a assepsia exagerada dos valores urbanos e curtindo a dor de não proporcionar ao meu filho a pura simplicidade.

(Clique aqui para conhecer mais sobre o projeto Território do Brincar)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um desenho de amor de mãe

...Então eu estava num curso de ilustração muito especial, este aqui.  De um exercício saiu este desenho, que eu descrevi assim:

Esse é meu filho.  Quando ele dorme, está sempre com o pé de fora.  Um pé de menino de 8 anos, mas que eu continuo achando bonitinho como quando ele era um bebê.  É nessa hora que eu posso me sentar na pontinha da cama que me sobra... porque ele está tão crescido... e ficar olhando apaixonada pra ele... E embora eu tenha a vontade impulsiva de envolvê-lo e protegê-lo como um cobertor, na verdade o que eu realmente desejo é que ele ponha mesmo os pés pra fora, alcance seus sonhos mais altos, alcance o céu...